terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O novo brilho da 'pérola' do Caribe'

A nova maneira de desqualificar a economia cubana, que cresce em média 5%/ano e está ainda mais auspiciosa após as reformas do presidente Raúl Castro, é classificar a relação da ilha com a República Bolivariana como análoga à que mantinha com a União Soviética.
Nada mais sofista.
Como lembrou o presidente da República durante a I Conferência do Partido Comunista, "A geração que fez a revolução teve o privilégio histórico de conduzir a retificação dos erros que ela própria cometeu. (...) Apesar de que já não somos tão jovens, não pensamos em desperdiçar esta última oportunidade".
A Repsol espanhola começará este ano a extrair petróleo de águas profundas do litoral cubano, a partir de uma plataforma chinesa. Se alcançar a meta de produzir 5 milhões de barris, o país não mais será dependente dos 2/3 do "ouro negro" que importa a preços generosos da solidária Venezuela, podendo chegar a abastecer-se plenamente de energia e criar condições para iniciar um processo de industrialização.
A Odebretch brasileira será concessionária da usina "7 de Setembro", em Cinfuegos, onde abrirá uma destiladeira e produzirá biocombustíveis, o que pode levar os cubanos à serem os terceiros maiores produtores do produto em escala mundial. Além disso, com um bilhão de investimentos no Porto de Mariel, com financiamento do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a empreiteira do Brasil construirá uma ampla estrutura viária, com processamento de resíduos sólidos e autosuficiente em energia, onde o governo pretende instalar um pólo industrial.
No campo da agricultura, o Brasil concederá 70 milhões em crédito para a pequena produção e empreendimentos cooperativos. Porém, os maiores investidores na economia cubana são os argentinos.
Na verdade, a liderança cubana está retomando o debate que travou nos anos sessenta, que polarizou Che a Fidel, sobre se industrializar ou não se industrializar (e ficar mais atrelada aos incentivos soviéticos), só que agora testando a opção derrotada naquela época e com as bases sólidas de êxito, bebendo na experiência de abertura chinesa, onde o Estado orienta o investimento privado e o devolve ao povo, colocando os universais e reconhecidos serviços públicos em saúde e educação do país, e da produção científica de medicina social, não no patamar de manter a excelência, mas de exponenciar o sucesso desse desempenho.
A economia está longe da inércia, ainda que com o cerco estadunidense. E sua meta não é a subsistência e sim, de um lado, livrar-se da monocultura agrícola, e de outro, criar uma zona de pressão empreendedora sobre os Estados Unidos para suavizarem ou suspenderem o bloqueio econômico, porém investindo na integração política, social e econômica latino-americana como uma diretriz estratégica.
Restaurar o capitalismo por restaurar seria fácil, bastava imbricar negócios com seu poderoso vizinho e transubstanciar burocratas em gerentes de multinacionais.
Esse é o "passa-moleque" que Cuba está dando nos EUA e pensar na perspectiva de "locomotiva caribenha" não é exatamente um delírio.
A "Glastnost", inviável imediata e instantaneamente para um país há 50 anos em guerra com a maior potência geopolítica da história, está sendo realizada ao nível em que evoluem as condições materiais do povo e com o cuidado de não confundir democracia com permitir uma representação política formal ao imperialismo.
Concomitantemente ao desempenho econômico, Cuba pode se reencontrar com o eixo democrático e as experiências de sustentação popular e democrática dos governos "progressistas" do continente foram fundamentais para esta reflexão, que pode gerar uma nova síntese da noção de "democracia socialista" e seus recortes na representação política, organização dos meios de comunicação, hegemonia do plano sobre o mercado sem prescindir deste como dinamizador da economia, garantias constitucionais do bem público, direitos sociais, por causa da cultura política pós-revolucionária e pelas bases econômicas e materiais estabelecidos nestas cinco décadas.
Começar a transição geracional, isto é, a ouvir e empoderar os jovens, incorporando mas lapidando suas visões de futuro, é o reflexo desse horizonte, que se manifesta no limite de tempo para mandatos no Partido e no Governo e no investimento na promoção da juventude que apóia o regime.
Por isso, está correta a diplomacia brasileira ao entender que ajudar Cuba a avançar economicamente é o melhor incentivo que se pode dar ao país e ser parceiro fundamental dessa nova empreitada ajudará a projetar o futuro geopolítico do Brasil na América Latina e, desta para o mundo, com ainda mais intensidade.
Não é por acaso que a cobertura da grande imprensa da viagem presidencial foque nos direitos humanos. Além da vontade de que a 6a economia mundial, porém tropical, ajude os EUA a recuperarem Cuba como zona comercial, o objetivo é esconder o novo período - agora positivamente especial - que se abre para a ilha e para os negócios brasileiros.